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Crítica | Ouija: A Origem do Mal

Crítica | Ouija: A Origem do Mal

ouija-a-origem-do-mal-poster-bode-na-salaOuija: A Origem do Mal (Ouija: Origin of Evil, 2016)

Direção: Mike Flanagan

Roteiro: Mike Flanagan e Jeff Howard

Elenco: Elizabeth Reaser, Lulu Wilson, Annalise BassoHenry Thomas, Doug Jones, Kate SiegelSam Anderson, Parker Mack 

Por André Bozzetti

Uma casa com um passado sombrio. Uma família traumatizada, obviamente contando com uma adolescente e uma menina na faixa dos 9 anos de idade. Um padre amigo da família e um monte de decisões infelizes por parte de todos os integrantes da trama. Receita básica para um filme de terror comum, sem nenhuma inovação e claramente sem nenhuma preocupação acerca disso.

Ouija: A Origem do Mal parece feito sob encomenda para aquelas sessões entre amigos, onde uns ficam assustando os outros durante o filme apenas para se divertir. Afinal, mesmo que virado pra trás, se escondendo ou batendo papo, ninguém vai perder nada que vá fazer alguma falta para a compreensão da história. Para garantir isso, o roteiro de Mike Flanagan (Hush: A Morte Ouve, O Espelho) e Jeff Howard (O Sono da Morte, O Espelho) mostra-se exageradamente expositivo e, ainda assim, consegue deixar várias situações completamente sem sentido.

Não assisti ao Ouija: O Jogo dos Espíritos para saber se alguma coisa precisava ser explicada (ou se adiantaria explicar). Este novo filme é uma prequel e se passa no final da década de 60. Uma viúva com problemas financeiros “trabalha” (entre aspas, é claro) como vidente com a ajuda de suas duas filhas para enganar os clientes. No entanto, ao adquirir um tabuleiro de Ouija para utilizar em suas sessões espíritas falsas, acaba liberando entidades sobrenaturais que passam a atacar sua família.

Mike Flanagan, além de co-roteirista, é diretor do filme. Sua direção trabalha com o óbvio e o clichê para filmes de terror. Várias situações ocorrendo em segundo plano de maneira mais escancarada do que seria necessário. Repetidas vezes, enxergamos dois personagens conversando que ficam postados cada um em um canto da tela, deixando óbvio que alguma coisa ocorrerá ao fundo, mesmo que ligeiramente fora de foco. Outras vezes, planos fechados em um personagem só, mas também postado tão para o canto que ficamos já esperando o susto que virá dali. E por falar em sustos, isso é tudo o que o filme tem a oferecer. Talvez nem isso para alguém que seja menos medroso do que eu.

Isso porque a trama é enrolada demais. Nos primeiros minutos de filme já entendemos a lógica da história, e mesmo assim surgem diversos personagens e situações absolutamente irrelevantes. Durante mais de um terço da projeção, o filme parece um drama com ares sobrenaturais, o que certamente não era a intenção, até porque essa ideia é abandonada abruptamente partindo para o lugar comum dos filmes de terror adolescente antes que qualquer personagem tenha sido devidamente desenvolvido.

Essa demora para mostrar a verdadeira cara é justificada pela ausência total de uma história que o justifique. Afinal de contas, todas as situações apresentadas simplesmente repetem o que já foi visto em dezenas de filmes sobre pessoas e casas amaldiçoadas. Apesar da caracterização das possessões utilizar conceitos que já estão batidos (os olhos brancos, a boca costurada ou abrindo muito mais do que deveria, a menina andando pelas paredes, etc), o pior mesmo ficou com as tentativas de inovação. O espírito maligno que se apresenta na forma de uma espécie de sombra escura com olhos é totalmente artificial, acabando totalmente com a já enfraquecida suspensão da descrença e tornando o filme bem menos assustador do que antes de seu aparecimento. E é uma pena que os efeitos visuais e as maquiagens sejam tão fracos, pois a direção de arte reconstruindo o visual da década de 60 é muito competente.

Sendo assim, o ponto alto do filme ainda são as irmãs Lina (Annalise Basso) e Dóris (Lulu Wilson), que conseguem criar a tensão e nos fazer torcer um pouco por elas. Lina, diga-se de passagem,  é a única personagem com algum bom senso na história toda. É a única que respeitou as regras do jogo de Ouija (apesar dos próprios roteiristas terem esquecido a regra “ALWAYS SAY GOODBYE”, que foi desrespeitada livremente sem consequências), a única que percebeu as mudanças em Dóris após a possessão e, a melhor parte: o momento em que ela praticamente grita para outros dois personagens a obviedade “Nos separarmos é a pior ideia de todas!”. Nem preciso dizer o que eles fazem a seguir.

Este Ouija: A Origem do Mal tem cara daqueles filmes que fazem todo o público possível na primeira semana de exibição no cinema, na primeira semana de lançamento nas locadoras (ou streaming)  e jamais será acessado novamente, caindo no abismo do esquecimento onde ficam os mais medíocres filmes de terror.

Nota: 4,5/10

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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