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Crítica: Inferno

Crítica: Inferno

inferno-poster-filme-bode-na-salaInferno (2016)

Direção: Ron Howard

Roteiro: David Koepp, Dan Brown (livro)

Elenco: Tom Hanks, Felicity JonesSidse Babett Knudsen, Ben Foster, Omar Sy, Irrfan Khan, Ana Ularu, Ida Darvish

Por André Bozzetti

O título do filme não poderia ser mais apropriado. A experiência oferecida pelo diretor Ron Howard (Uma Mente Brilhante, No Coração do Mar) ao longo das duas horas de projeção das novas aventuras de Robert Langdon pode ser comparada a um passeio nos jardins de Satã. Um longo e acelerado passeio.

Inferno é a terceira adaptação para o cinema dos livros de Dan Brown, que surgiu para o mundo com o fenômeno de vendas O Código da Vinci. Misturando locações maravilhosas, lendas interessantes, teorias de conspiração, um protagonista brilhante e muita ficção que soava como realidade, Dan Brown conquistou uma legião de fãs no mundo inteiro. Tenho que admitir: o livro era contagiante. Impossível parar de ler. Um texto fácil, capítulos que se encerravam com mistérios, enigmas, ou surpresas, sempre nos obrigando a ler mais um pouquinho. Uma receita infalível e muito bem utilizada, mas que começou a ficar manjada e perder efeito nos livros seguintes.

Desta vez, a história inicia com o simbologista Robert Langdon acordando em um hospital de Florença, com um ferimento na cabeça, sem a menor ideia de como foi parar lá e se deparando com os planos de um geneticista bilionário para acabar com o problema da superpopulação humana na face da Terra. Enquanto foge de pessoas que querem lhe matar, precisa analisar pistas baseadas na Divina Comédia, de Dante Alighieri, para decifrar o local onde supostamente encontra-se uma praga. Uma premissa interessante que, infelizmente, produziu um livro um pouco decepcionante, apesar de alguns bons momentos.

No que se refere aos filmes, Ron Howard (que dirigiu as três adaptações) não chegou nem perto de transferir suas qualidades para a tela grande, cometendo equívocos grotescos que culminaram neste Inferno (com trocadilho, por favor). Depois de O Código da Vinci, Howard dirigiu Anjos e Demônios. Este, por se ater mais à ação (o filme é uma correria do início ao fim) e menos aos enigmas que Robert Langdon deveria decifrar, funcionou um pouco melhor do que os outros dois. No entanto, fica claro que quando o roteiro de David Koepp precisa explicar acontecimentos e comportamentos de maneira que encaixem uma história de 450 páginas em um filme de 2 horas de duração, ele faz escolhas muito equivocadas sobre o que manter e o que tirar, sobre o que mudar, sobre onde encaixar as informações e, na verdade, é difícil encontrar algo no que ele acerte.

Analisando a filmografia de Koepp e percebendo que seu melhor filme dos últimos 15 anos é Homem-Aranha (2002) e que ele é o responsável pelo imperdoável Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008), fica muito claro que não existia menor chance deste filme dar certo. Terminado o suplício, digo, terminada a sessão, tive uma vontade enorme de conversar com alguém que não tivesse lido o livro e perguntar o que ela entendeu em vários momentos da trama. Isso porque existem tantos furos no roteiro que ele parece não ter nenhuma lógica. A impressão que dá é que o filme só se torna minimamente compreensível (e ainda muito longe do aceitável) só porque completei algumas lacunas com o que havia lido anteriormente. Em certo momento, senti que até Felicity Jones (que interpreta Sienna Brooks) teria se irritado com o absurdo das decisões do roteirista ao, após presenciar uma demonstração do alto intelecto e memória fotográfica de Langdon, pergunta a ele algo como “e você não lembrava o que era café?”. Sim. Um personagem com uma simples perda de memória recente participa de uma cena de cerca de um minuto para mostrar que não lembrava o nome desta bebida, algo completamente absurdo e desnecessário.

No que se refere às atuações, confesso que sinto algum constrangimento por Tom Hanks. Já em O Código da Vinci ficou bem claro que, apesar dele ser o ator perfeito para viver Robert Langdon, a sua transposição para o cinema foi completamente equivocada. O personagem perdeu várias características importantes e ficou extremamente canastrão. As deduções e descobertas que faz soam sempre artificiais, principalmente quando, por opções de roteiro, fazem com que seus pares em cena o “ajudem” a decifrar algo, algo que sempre aparece de forma mecânica e sem lógica. Felicity Jones é a “Langdon Girl” da vez. Difícil comentar algo sobre a atuação de uma personagem que foi tão sabotada pelo roteiro. O mesmo pode-se dizer de Irrfan Khan e seu Harry Sims. Já Omar Sy tem seu talento desperdiçado em um personagem mal elaborado, que surgiu da fusão de dois personagens diferentes do livro e ainda adicionando um toque infeliz do roteirista David Koepp.

Outro pecado imperdoável de Inferno é a sub-utilização de suas locações. Um filme rodado em cidades como Florença e Veneza (para não citar outras que soariam como spoiler) obrigatoriamente deveria encher os olhos do público com a beleza de seu cenário. Infelizmente, a câmera confusa, os planos mal escolhidos e extremamente curtos mal nos deixam curtir um pouco de suas belas paisagens. Inclusive a cena que se passa nos Jardins Boboli poderiam ter sido feitas até no Parque Marinha do Brasil que ninguém notaria a diferença. Sobre os planos curtos, só posso acreditar que tenha sido loucura do montador, pois não consigo conceber alguém planejar tantos cortes seguidos sem nenhuma necessidade. Em determinado do filme eu comecei a contar mentalmente quantos segundos se passavam entre um corte e outro. Raramente eram mais de dois ou três segundos. Multipliquem isso por 2 horas de filme e teremos a sensação de estar assistindo o filme em uma montanha russa sem freios e em constante descida.

Os livros de Dan Brown, com todos os seus problemas, poderiam tranquilamente gerar uma franquia eficiente no cinema. Um bom entretenimento, pelo menos. Infelizmente, parece que o caminho tomado não tem mais volta. Talvez seja melhor parar por aqui mesmo, afinal, tenho medo do que pode vir abaixo do nível de Inferno.

Nota: 3/10

Crítica em vídeo:

Trailer:

 

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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