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Crítica: No Fim do Túnel

Crítica: No Fim do Túnel
no-fim-do-tunel-poster-bode-na-salaNo Fim do Túnel (Al final del túnel, 2016)

Direção: Rodrigo Grande

Roteiro: Rodrigo Grande

Elenco: Leonardo Sbaraglia, Pablo Echarri, Clara Lago, Javier Godino, Federico Luppi

Por André Bozzetti

Existe um bom cinema argentino mesmo sem a participação de Ricardo Darín. Esta é uma informação relevante que parece ser esquecida pelas distribuidoras, canais de TV, e até serviços de streaming que oferecem pouquíssimo ou quase nenhum conteúdo dos hermanos que não contenha aquele ator que (arrisco-me a dizer) todos nós adoramos. Fiz um exercício mental agora buscando lembrar alguns exemplos que chegaram nos últimos anos aos cinemas de Porto Alegre ou à Netflix e foi bem difícil. Vieram à memória O Clã, Medianeras, Diários de Motocicleta… só? Bom, desta vez o destaque é outro ator fenomenal chamado Leonardo Sbaraglia.

Em O Fim do Túnel, Sbaraglia interpreta Joaquín, um homem paraplégico, solitário e amargurado, que por problemas financeiros decide alugar o andar superior da casa onde mora. Berta (Clara Lago), uma stripper, e sua filha Betty (Uma Salduende) surgem em uma noite chuvosa e, sem dar tempo sequer de Joaquín pensar a respeito, se instalam na casa. Poucos dias depois, Joaquín escuta vozes vindas através da parede do porão onde fica seu escritório, e logo percebe tratar-se de criminosos planejando um assalto ao banco do outro lado da rua através de um túnel que passaria por baixo de sua casa.

Um homem preso a uma cadeira de rodas tomando ciência de um crime na vizinhança? Será que já vi isso em algum lugar? Qualquer semelhança com Janela Indiscreta, segundo o diretor e roteirista Rodrigo Grande, é mera coincidência. Após a sessão de pré-estreia, Grande (que estava em São Paulo) participou de um debate por videoconferência com salas de cinema do país inteiro, e respondeu algumas perguntas enviadas por WhatsApp. O diretor, em uma conversa bem aberta e sincera, afirmou que seu filme não pretendia ser original, recebeu influências indiretas de tudo que ele já assistiu na vida, mas que a ideia do cadeirante não era nenhuma referência ao clássico de Alfred Hitchcock.

Pode ser verdade, afinal as semelhanças param por aí e a história da cadeira de rodas se justifica perfeitamente no decorrer da trama. Em sua fala, o diretor se declarou um fã de Steven Spielberg e Brian De Palma, e realmente percebe-se a influência deles em alguns planos do filme. Uma ou outra lembrança de E.T., Minority Report, Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Spielberg) e, me ocorreu também alguma coisa de Dublê de Corpo e Olhos de Serpente (De Palma).

O primeiro plano do filme nos mostra um bueiro na rua enquanto chove ininterruptamente. A chuva e o subterrâneo estarão presentes de forma constante no filme, tendo significados práticos e simbólicos. A câmera flutua em um suave travelling até a casa de Joaquín, onde o encontramos trabalhando sozinho no porão, mexendo em discos rígidos e softwares de computador.

Neste início, já percebemos a maravilhosa fotografia de Félix Monti (O Segredo dos Seus Olhos, O Auto da Compadecida) e o detalhado trabalho de direção de arte que, através de teias de aranha, livros espalhados e plantas mal cuidadas por todo o lado, transformou a casa de Joaquín em um lugar aparentemente abandonado e sem vida, assim como o dono e seu cachorro idoso Casimiro, que sequer conseguia levantar de sua almofada. É sintomático sobre o personagem de Sbaraglia, que ao ver seu velho cachorro sem condições de andar (assim como ele), a atitude que toma é pesquisar na internet formas de sacrificá-lo sem dor. Possivelmente uma projeção de um desejo para si próprio. Uma morte calma para acabar com o sofrimento que está estampado em seu rosto.

A composição do personagem de Leonardo Sbaraglia é incrível tanto em suas expressões faciais quanto nos movimentos mais amplos nos quais as pernas parecem completamente insensíveis e imóveis. Em cenas nas quais ele se obriga a rastejar ou se erguer apenas com a força dos braços, em nenhum momento duvida-se da sua condição. A chegada de Berta e Betty muda abruptamente o seu lar e, gradualmente, passa a mexer com os sentimentos de Joaquín. Enquanto Berta é extrovertida ao ponto de ser invasiva, forçando um contato maior do que o desejado por seu senhorio,  Betty, ao contrário, aos 6 anos de idade não fala uma palavra em função de um problema psicológico. Por sua vez, a menina cria uma ligação instantânea com Casimiro, que apresenta uma recuperação significativa saindo do estado quase vegetativo no qual se encontrava. E este mesmo efeito é provocado por Berta em Joaquín, sobre o qual ela vai compreendendo um pouco a história ao passo que encontra “pistas” do seu passado pela casa.

A descoberta dos criminosos do outro lado de sua parede era o incentivo que faltava para Joaquín se sentir vivo. Os sorrisos que voltavam pouco a pouco devido à convivência com Berta são acrescidos de uma grande confiança e força de vontade. A partir de então, vemos um cadeirante muito mais engenhoso e corajoso que aquele vivido por James Stewart em Janela Indiscreta. A paralisia de suas pernas se torna um mero detalhe ao qual ele jamais se prende ao colocar em prática o plano que desenvolveu. Esse é um dos grandes méritos do filme. Não mostrar um paraplégico como vítima ou como uma pessoa em risco e sim como um proponente ativo da ação. E os bandidos não são nem um pouco frágeis ou amadores. São um grupo muito bem treinado e extremamente violento que nos faz temer diversas vezes pela vida de Joaquín, Berta e Betty. Galereto (Pablo Echarri), líder do grupo de assaltantes, disfarça sua maldade em uma voz baixa e cadenciada, mas demonstra em diversas ações o quão perigoso é. Javier Godino (Gómez de O Segredo dos Seus Olhos) e o veterano Federico Luppi são outros que, mesmo em participações menores, trazem uma força considerável ao elenco.

O filme traz uma mistura bem dosada de tensão e humor, que é eficaz para dar ao público uma chance de respirar mais tranquilamente por alguns momentos, visto que em outros chegamos a prender a respiração junto com os personagens. A mixagem de som ajuda muito na construção desta tensão junto à excelente montagem. Infelizmente, o filme peca ao não deixar clara a geografia da vizinhança e que lugar exato era aquele onde os ladrões se encontravam. Parece um detalhe bobo, mas considerando que cerca de dois terços do filme se passam nesse espaço separado apenas por uma parede, acaba tornando-se um aspecto relevante. Fora isso, um plano detalhe que estou até agora tentando entender a motivação, visto que o que foi mostrado tinha potencial para ser fundamental para o filme e, no entanto, nunca mais foi visto.

No final das contas, o saldo é bem positivo. O filme cumpre bem seu papel e se torna uma boa opção para quem gosta do gênero suspense e policial. Sendo assim, é ainda mais vergonhoso constatar que em uma cidade do tamanho de Porto Alegre, uma pré-estreia de um filme estrangeiro com direito a entrevista com o diretor tenha levado apenas nove pessoas ao cinema. Muito triste.

Nota: 8/10

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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