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Crítica 2: O Lar das Crianças Peculiares

Crítica 2: O Lar das Crianças Peculiares

o-lar-das-criancas-peculiares-bode-na-salaO Lar das Crianças Peculiares (Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children, 2016)

Direção: Tim Burton

Roteiro: Jane Goldman

Elenco: Eva Green, Asa Butterfield, Samuel L. Jackson, Ella Purnell, Allison Janney, Chris O’Dowd e Terence Stamp

Por André Bozzetti

Ao final da sessão das 18h40 de O Lar das Crianças Peculiares me vi com um sentimento de encantamento e alegria. Encantamento com o belo filme que havia acabado de assistir e a alegria de ter reencontrado Tim Burton. Não aquele Tim Burton dos fraquíssimos Alice no País das Maravilhas e Sombras da Noite. Nem o Tim Burton dos promissores Peixe Grande e Grandes Olhos, que eu até gostei mas bateram na trave. Na verdade, eu já estaria feliz com o Tim Burton de A Noiva Cadáver e Frankenweenie. Mas foi melhor que isso: eu tinha reencontrado o Tim Burton de Beetlejuice e Edward Mãos de Tesoura. Sim, ele voltou!
O longa metragem é baseado no livro “O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares” do qual eu já deveria ter ouvido falar, visto que vendeu milhões de cópias no mundo inteiro e foi traduzido para mais de 40 idiomas. A história começa quando Jake, um adolescente de 16 anos, testemunha a violenta morte de seu querido avô Abe, que sempre lhe contou histórias sobre pessoas e lugares fantásticos. Traumatizado com o ocorrido, o garoto imagina estar tendo alucinações baseadas nas antigas histórias de Abe e decide seguir pistas para desvendar o passado do avô e saber o que de real havia naquilo tudo que escutou durante toda sua infância.
Assistindo o trailer, confesso que tive a impressão de que tudo ali lembrava demais a Escola para Jovens Superdotados do Professor Xavier e, portanto, não haveria muita novidade na tela. Eu estava enganado. Apesar de haver uma clara “inspiração” na Mansão dos X-Men (e um pouco de Harry Potter também), as crianças peculiares fazem parte de um universo mais encantador e mágico, diferente daquele mundo “bélico” dos mutantes da Marvel. Fiquei muito curioso para ler o livro para descobrir até onde vai a criação do autor Ransom Riggs e onde começa a influência da estética de Burton, que ao se apresentar de maneira menos estilizada do que em outros momentos, se mostrou incrivelmente eficaz.
De início, os créditos surgem em uma bela montagem que nos mostra fragmentos de mapas, fotos e notícias que compreenderemos em seguida do que se tratam. Esta montagem tem um ar sombrio que contrasta com a primeira cena do filme onde encontramos Jacob trabalhando em um supermercado em um típico dia ensolarado na Flórida.
Ali, enquanto trabalha, percebemos que Jacob é um jovem deslocado de seu mundo, parecendo inclusive ser “invisível” para os seus colegas que agem como se ele nem estivesse ali (o que é de certa forma irônico quando descobrimos um segredo sobre ele). Em seguida, Jacob vai ao encontro de seu avô (obs. ele vai em um carro roxo, uma cor que é constantemente relacionada à morte, seja ela física ou simbólica. No caso, uma mudança significativa na vida do personagem). E nesse momento há um novo choque visual ao sairmos da ensolarada Flórida e chegarmos na casa do avô em meio a uma densa névoa e seres fantasmagóricos.
Estes seres não poderiam ter uma estética mais adequada: alguns não possuem olhos (parecidos com a criatura do Labirinto do Fauno e outros possuem assustadores olhos completamente brancos. Já os heróis, na sua maioria, ostentam grandes e belos olhos. Um clichê, mas funciona muito bem.
Saindo um pouco da questão estética, outro ponto altíssimo do filme é a dosagem de tensão, humor, terror, ação e toda emoção que ele nos proporciona. Ele conseguiu unir tudo isso na medida certa durante as duas horas de projeção. Mérito do roteiro de Jane Goldman (de Kingsman, Kick-Ass, X-Men: Primeira Classe) e também do ótimo elenco. Jake, vivido por Asa Butterfield (de Hugo Cabret e O  Menino do Pijama Listrado) é extremamente eficiente ao seguir religiosamente os passos da “Jornada do Herói” (não vou descrever aqui, mas quem não conhece pode dar uma olhadinha no Google). Já o personagem de Samuel L. Jackson (como todos outros vilões da história) é o típico vilão unidimensional. Não tem por onde ser mais perverso. Ele e seus comandados proporcionam cenas que apenas por um milagre da direção de arte não jogou a classificação etária do filme para 18 anos. Eva Green nos traz uma Srta. Peregrine misteriosa, que em diversos momentos nos deixa em dúvida sobre suas reais intenções. E, por fim, as crianças peculiares.  De uma maneira geral elas possuem poderes diferentes dos quais estamos acostumados. Alguns parecem um tanto inúteis, outros divertidos quando associamos à imagem da criança. Afinal, é engraçado ver uma menina de uns 8 anos de idade dotada de superforça. E as crianças nos encantam tão rapidamente que passamos a temer pelo destino delas quando percebemos que estão ameaçadas. Ou seja: da mesma forma que no excelente Os Fantasmas se Divertem, Burton consegue assustar e divertir praticamente ao mesmo tempo.
A história acaba sem nenhum sinal claro de que haverá uma continuação, mas lendo os títulos dos outros livros de Ranson Riggs sobre as crianças peculiares percebi que é perfeitamente possível que isso venha a acontecer. Certamente, como tudo em Hollywood, vai depender do retorno financeiro deste primeiro filme. Fico na torcida por continuações, principalmente se vierem de novo pelas mãos de Tim Burton.
Nota: 8,5/10
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