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Crítica: Aquarius

Crítica: Aquarius

aquarius-bode-na-sala-posterAquarius (2016)

Direção: Kleber Mendonça Filho

Elenco: Sônia Braga, Maeve Jinkings, Humberto Carrão, Irandhir Santos, Pedro Queiroz, Julia Bernat, Barbara Colen e Thaia Perez

Por André Bozzetti

Difícil não falar sobre Aquarius, o novo e apaixonante filme do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho. No entanto, esta dificuldade não está relacionada a toda polêmica política que se criou acerca do filme, e sim porque este é recheado de lindas histórias, de simbolismos, de momentos tocantes e de detalhes técnicos que são impossíveis de serem guardados apenas para si. Eles precisam e merecem ser compartilhados. Só eu sei a agonia que senti em assisti-lo pela primeira vez sem sequer um conhecido por perto com quem conversar a respeito.

Ao sair da sala de cinema do Palácio dos Festivais em Gramado, a primeira e única pessoa com quem consegui trocar algumas palavras foi a atriz Maeve Jinkings, com quem esbarrei no corredor. Emocionado pelo filme e encabulado em função da minha insuportável timidez, só consegui dizer para ela: “Parabéns, o filme de vocês é lindo”. Só. Inferno. Eu queria falar muito mais. Voltar a assisti-lo, dessa vez ao lado da minha esposa, foi um alívio enorme. Agora sim, poderia comentar com alguém toda aquela beleza que faz os 141 min de projeção passarem voando.
Aquarius nos apresenta uma situação muito comum nos dias de hoje. Uma grande construtora quer demolir um prédio para construir um novo (maior, mais moderno e mais rentável) empreendimento no local, mas uma moradora se recusa a vender o apartamento no qual viveu momentos importantes de sua vida. Sendo a única proprietária que ainda mora no edifício que dá nome ao filme, sofre com as investidas cada vez mais fortes e desleais do empresário responsável pelo novo projeto.
E agora? Por onde começar? Nada mais justo do que começar falando de Sônia Braga. Sua atuação é irretocável. A atriz encarna a protagonista, Clara, que está presente em praticamente todas as cenas do filme. Braga consegue, com uma sutileza impressionante, apresentar sua personagem como uma mulher forte e decidida e, simultaneamente, expressar pequenos (ou grandes) sofrimentos que Clara não revela, mas que enxergamos eventualmente. Por exemplo, em olhos que, após um simples piscar, estão marejados ao serem reabertos. Em outra ocasião, esta dor escondida surge em uma voz repentinamente trêmula. Nesses detalhes sutis de atuação, a atriz nos entrega uma personagem incrivelmente realista e admirável.
Para complementar, os seus coadjuvantes também estão fantásticos. Humberto Carrão, como Diego, nos entrega um “vilão” que jamais se mostra como tal. Ele consegue ser ameaçador sorrindo, falando baixo, sendo aparentemente simpático. Uma forma extremamente eficaz de jamais permitir ao espectador saber exatamente o que esperar dele.
Além deles, Maeve Jinkings (representando Ana Paula, filha de Clara), Irandhir Santos (Roberval, o salva-vidas), Pedro Queiroz (Tomáz, sobrinho de Clara), Julia Bernat (namorada de Tomáz), entre outros. Um destaque especial para Barbara Colen (a jovem Clara) e Thaia Perez (a espetacular Tia Lúcia) que nos poucos minutos de participação conseguem encantar e deixar saudades logo que a história avança algumas décadas no tempo.
Falando nisso, este é outro ponto altíssimo de Aquarius: seus personagens secundários. Tia Lúcia que está presente apenas nos minutos iniciais do filme é o símbolo máximo da memória afetiva impregnada naquele apartamento que Clara se recusa a vender. Em determinado momento do filme, Clara chega a dizer sobre a Tia Lúcia que “jogaram a forma fora”. Ledo engano. Ela mesma parece ter sido feita na mesma forma. Fica claro o tempo inteiro o quanto aquela personagem da qual vimos tão pouco influenciou a vida da protagonista. Inclusive a relação estreita e carinhosa (para não dizer maternal) de Clara com os sobrinhos lembra muito o que nos foi apresentado no início da projeção.
Só o que senti sobre os personagens e atuações já seria suficiente para me fazer adorar Aquarius, mas ele é muito mais que isso. Poderia ficar horas falando sobre os simbolismos presentes no filme. Uma situação marcante ocorre pouco depois de Clara negar uma negociação por seu apartamento. Em uma visita ao cemitério, vê dois coveiros retirando ossos sujos de terra de dentro de uma cova, certamente liberando espaço para um novo (e provavelmente mais rico) corpo que utilizaria aquele espaço. Ou seja: nem após a morte podemos ter certeza de que não perderemos nossa morada para “novos empreendimentos”. Esse é só um exemplo, há muito mais. Os cabelos de Clara, o câncer, determinados insetos e até mesmo uma simples cômoda, todos representam muito mais do que simplesmente aquilo que vemos.
Ainda no aspecto visual, é muito interessante o contraste entre dois enquadramentos semelhantes, em duas cenas próximas. Na primeira, Clara conversa com determinado personagem de forma aparentemente íntima, com o diálogo ocorrendo quase todo em plano e contra-plano. No instante em que existe uma ruptura nesta intimidade os dois são apresentados em um plano único, mais aberto, mas com um pilar aparentemente separando os dois. Pouco depois, em uma festa de aniversário, é feito um plano aberto que mostra o local da festa de longe, com um pilar dividindo em dois o “salão” onde esta ocorre. No entanto, dessa vez estão todos os convidados do mesmo lado do pilar, demonstrando o momento de união autêntica que estava sendo vivenciado.
E novamente, como no ótimo O Som ao Redor, também escrito e dirigido por Kleber, a banda sonora está fantástica. Em duas cenas distintas, escutamos pessoas chegando no edifício mas não as vemos. Enquanto isso, a câmera as “acompanha” filmando as paredes do apartamento de Clara seguindo o caminho por onde elas estariam passando. Uma vez até a porta, outra vez até o andar de cima, de forma que ficamos enxergando o teto do apartamento de Clara apenas imaginando quem seriam as pessoas e o que estaria por vir. Além disso, vários e belos raccords sonoros, principalmente aqueles realizados através de ruídos feitos pela agulha dos toca-discos.
No final das contas, o filme nos mostra que apesar do que muita gente pensa, nem todas as coisas tem um preço. Existem aquelas que não podem ser medidas em reais, dólares, ou euros. E se não podem ser medidas, obviamente não podem ser compradas.
Aquarius é lindo. Emocionante. Encantador. Deixar um filme poderoso e necessário como esse fora da disputa do Oscar por razões unicamente políticas é mais um ataque desse governo golpista ao nosso país. É um sinal de que a cultura e arte do Brasil estão tão ameaçadas quanto 50 anos atrás. Tempos sombrios estes em que vivemos.
Nota: 10/10
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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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